Tuesday, May 05, 2009

Para o João

Das coisas que quero te mostrar.

Friday, May 01, 2009

teus pés já tocam o mundo


que te abraça atento e servil ao teu sorriso.



Monday, September 29, 2008

Dica Sólida- na ante-sala / Jaime Medeiros Jr.


Darwin (Segredos de)

Quadrúpedes são submissos por natureza. Cheiram o cu alheio e, se não o fazem, lambem o chão. A maioria não ultrapassa os nossos joelhos, joelhos probos que nos articulam à soberania. Quadrúpede feio e fedorento. Escória da sarjeta. Um catarro quadrúpede humilhado. E peludo e magro. Só alguém pior que a escória poderia resgatá-lo. Só outro quadrúpede. Ou um bípede idiotizado, que não faz reverências à própria grandeza. Um quadrúpede em disfarce, pois.

Sunday, September 07, 2008


Chegou e viu as costas. Mal sabia que vértebras, costelas e nádegas podiam ainda sorrir (ou chorar: por não mais lembrar do branco puro dos dentes).

Tuesday, September 02, 2008

Compartilho

Hoje saí cedo de casa. Devia ir ao analista, mas logo percebi meu engano. Ando meio esquecida, confusa com os horários e dias da semana. Dizem que é coisa do cérebro feminino. Eu acho que é fase, uma virose que me acomete. A consulta não era hoje, é amanhã- me dei conta. Acho que seja. Talvez. De toda a forma, não desci do carro nem dei meia volta. Levaria meu marido ao trabalho e depois resolveria algumas coisas (pendentes) e de cunho prático (não reflexivo). No caminho íamos conversando sobre a possibilidade de quem sabe nos mudarmos, uma outra casa, um apartamento quem sabe, mais próximo do centro da cidade. Vivemos na zona sul da zona sul, numa região tranqüila e: um homem morto. No chão da calçada. Estreita a vida e a calçada. Uma atração. Formou-se fila de carros, fila de gentes, de pássaros e borboletas. Para ver o homem morto cedinho da manhã. Uma senhora cobriu o tronco e a face com um pano branco. O manto do perdão, porque todo o morto é perdoado. Apareciam os dois pés pequenos, quase infantis, relaxados. Só a ausência de alma dá paz ao corpo. Tinha os sapatos pretos sérios e as meias soquetes brancas, como quem vai a igreja rezar e deixa um pouquinho de dinheiro pra Deus. As calças mostarda, curtas, nem as calças mostarda eram vida no homem morto. O sol não deixou de se exibir. Meu marido estava apressado, tinha um julgamento. Eu dirigia, gerava, via e pensava. Nada parou além daquele corpo.

Wednesday, August 20, 2008

Alguns criados crus

*Acorda todo o dia às 5:57, em ponto e sem despertador. É de corpo completo, só lhe faltam cabelos no alto da cabeça chata. E não é nordestino. Foi parido e criado por Maria. Não se sabe do pai. Seria homem comum, caso não jurasse (por Deus, nosso Senhor) que a vida bóia dentro de uma suculenta e depravada melancia.

**É só mais um e tem orgulho do sobrenome. O pai já se foi. Difícil sê-lo tanto e ainda. Consegue, contudo. Tem duas mulheres: a mãe e a esposa. Gosta de laranjas e cultiva a barba, apesar da pouca idade.

***Sonha para driblar a insônia. Vai ao analista para curar o que desconhece. De pouca vaidade, costuma aparar os cabelos para não chamar atenção: a cabeça sempre lhe foi grande por demais. Anda com os olhos baixos e com as certezas no inconsciente.

****Ri porque não aprendera a chorar. Se basta.

Sunday, August 03, 2008

manhã

aldrava do dia

te peço

termina

para eu me deitar.

Friday, August 01, 2008

João Cabral de Melo Neto

"...E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina."

(Morte e Vida Severina)

Wednesday, July 23, 2008

Problemas no computador. Uma canção, por enquanto.


Tuesday, July 08, 2008

O tempo me passa lento, pedindo licença, implorando para ser notado. Qualquer dia é assim, meu tédio disputa com o tempo quem é o mais devagar. Mulas que não se conversam, que se olham de vez em quando, só de canto de olho e sem precisão: um teme ao outro mais do que o próprio outro teme ao um. Quando reclamo (para os íntimos), me dizem: tudo chegará ao seu tempo. E o tempo se pronuncia de novo, lento, lento, que parece que nunca chegar.

Monday, June 23, 2008

E eu vejo a flor que já não há







Exercício de aula

A proposta era o uso de diálogo com alguns "implícitos" dos personagens.
Luiza, a mais nova, parecia não estar na sala. Muito ocupada, estava mais atenta aos bipes do celular, às janelas opacas e aos próprios devaneios de alienação deliberada. A Sílvia do meio, os olhos fundos de pequena e sempre, suspirava. Ainda guardava o rabo de cabelo seco no alto da cabeça- e que cabeça grande tinha, coitada. Cléber, o primogênito, não quis sentar e via todos do alto do seu comprimento.

Os três encaravam o pai, o velho João, contente em ver os filhos juntos. Cléber iniciou o papo.

- E então, pai, como andam as coisas, a casa, as enfermeiras? Conta pra nós, como anda tudo.

Luiza mexia no celular, bipbipbip, e Sílvia roia as unhas que nunca teve.

- Tudo indo, meu filho, tudo indo ao seu tempo. A casa é grande para esse velho solitário, mas as enfermeiras dão qualquer graça ao vazio que a mãe de vocês deixou. Coisas da vida, vocês devem saber disso.

João olhou para o rosto dos filhos, um por um. Disse que estava feliz em vê-los, que Sílvia parecia cansada, que Luiza devia tirar franja dos olhos e que Cléber, por favor, parasse de se comportar como um político; que deixasse isso para Brasília. E todos riram, um milagre, para a festa de João.

Mas o fato é que político ou não, Cléber já havia convencido Luiza bipbipbip de que o melhor para o pai era um asilo, que conhecia casas que podiam abrigá-lo com muito conforto e cuidado. Sílvia sabia por cima da história, só pelo telefonema que recebera como aviso do encontro. Desde então, andava desconcertada, mas sem muita coragem.

- Pai, então... – disse Cléber -Nós estamos muito contentes de estar aqui com o senhor. É bom ver que tudo está bem e funcionando, mas achamos que isso realmente pode ficar ainda melhor. - E Cléber abriu um sorriso largo, indo até as costas do pai e agarrando com firmeza os ombros velhos de pelanca.

- Mas que bom, meu filho, e como será isso? Que boa notícia vocês estão me trazendo?

Bipbipbip, o Cléber inflou o peito e, rápida, Sílvia interrompeu.

- Pois então, pai, tenho certeza que ficarás contente!

- Ande, Silvinha, fale logo, seu velho pai está curioso...

Bipbipbip.

- Pai querido, é que decidimos que vou morar junto com o senhor. Assim lhe faço companhia e ajudo a na administração da casa. O que lhe parece, hein?- perguntou com algum entusiasmo.
Cléber olhou o chão. Resolveu enfim sentar, com as duas mãos de apoio à testa grande.

Bipbipbip. Bipbipbip.

Monday, June 16, 2008

O que ele sabia
era o que ele criava

Nunca entendera a escola
nem as perguntas da vida.

Monday, May 26, 2008




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Favelário Nacional (um trecho)


4. FELIZ

De que morreu Lizélia no Tucano?
Da avalanche de lixo no barraco.
Em seu caixão de lixo e lama ela dormiu
o sono mais perfeito de sua vida.

Carlos Drummond de Andrade

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Da confusão (e de como tudo na vida)

As idéias, as boas idéias principalmente, precisam de espaço para crescer.

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